quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O DESEMBARQUE -

O Desembarque (Leva de Escravos) Foi longa a travessia?... Mas a terra Aparece por fim... a terra pura, Que a seiva do porvir no seio encerra, Que transborda de risos na verdura! Então um paraíso só descerra Na grandeza que ajusta-se à ternura; A vida via suave e descuidosa A natureza, altiva e portentosa. Dos navios que tristes ancoraram, Como ladrões... esquálidos bandidos... Saltam homens que a pátria atrás deixaram; Que aos sorrisos dos ventos em seus ouvidos, Estatelados, pávidos ficaram, Como se ouvissem só, entre gemidos, O choro de seus pais lá nos seus lares Que bem longe... atrás... nos mares... É a turba famélica de escravos Que acabam de chegar...ai! não saudemos, Sua alma dolorida, os seus agravos Todos feitos por nós... Para lavar os crimes ignavos Que na face dos homens inscrevemos. A cada som que dão estas cadeias, Alma da história, quanto te mareias!... Cambaleando, mortos de fadiga, Repelidos do mar que os não tragara, Onde hão de um dia achar uma voz amiga, Que a dor acerba em risos lhes trocara!... Rejeitados do céu que não abriga O cativo que o olhar no céu fitara, Rechaçado dos homens que os devoram A fome, a peste, a morte... eis o que implorava... Ah! Não, não foi por certo a luz dos fortes Testemunha do crime indiferente... Foram da noite as trêmulas cortes De sombras, que se escoam friamente, Que guardaram a presa... Nos transportes Que no mandas transidos pela mente, Oh, tristeza do sol, inda ressumas Refletidas do mar sobre as espumas!... Sílvio Romero (1851 - 1914) * in Parnaso Sergipano, vol. II, 1904, pp. 279-280 Disponível no site http://www.aracaju.com/museu/negros1.htm

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